terça-feira, 3 de julho de 2012

Apenas uma Noite [2010]



(de Massy Tadjedin. Last Night, EUA, 2010) Com Keira Knightley, Sam Worthington, Eva Mendes, Guillaume Canet. Cotação: **

Chegou com um atraso medonho nos nossos cinemas esse mais novo trabalho Massy Tadjedin, estreando como diretora após conquistar certo prestígio como roteirista de “Camisa de Força” (2005), filme que também tinha Keira Knightley no elenco. Com o intuito de trazer situações destoantes acerca da infidelidade, “Apenas Uma Noite” faz com que não saibamos ao certo o porquê muitos desses jovens cineastas querem ganhar a atenção do público (e não seria falsa pretensão dizer que eles também desejam reconhecimento artístico), mas sem trazer algo de relevante dentro daquilo que está parecendo propor no próprio trabalho. Desperdício total de talento, o que não deixa de ser lastimável.

Numa Nova York filmada em Londres, conhecemos um jovem casal que está casado há três anos. Ele é Michael (Sam Worthington, de “Avatar”) , um homem de negócios, prestes a viajar para Filadélfia por conta de compromissos profissionais. Ela é Joanna (Keira Knightley, de “Um Método Perigoso”), uma jornalista freelancer que se encontra até mesmo insegura pelo fato do marido está indo viajar com uma colega chamada Laura (Eva Mendes, de “Dia de Treinamento”), a quem ela considera tão atraente, que chega a ser um perigo. Mas durante a ausência do marido, ela se reencontra com Alex (Guillaume Canet, de “A Praia”), um escritor francês com quem se relacionara no passado, e parece ter reacendido o interesse de Joanna por ele. 

Por começar de uma forma até promissora, fica nítido que “Apenas uma Noite” estava querendo se garantir numa coisa até bem simples: conquistar o interesse do público até o fim, só pra saber se a traição de Joanna ou Michael será, de fato, consumada. O jogo é somente esse. Qualquer movimento dos olhos, uma fala aguardada e atitudes dos personagens, ficamos prestando atenção para saber se será confirmado aquilo que tanto torcemos para que não aconteça (ou não). Alguns casais podem até se identificar, seja na insegurança tão humana da personagem de Keira, ou com a luta contra os seus próprios instintos travada por Michael. Independente das situações, dizer que se identificou com o filme no todo não será algo que você falará por muito tempo, acredite. 

Reconheço a tentativa até bem vinda de desenvolver os quatro personagens. A personagem de Eva Mendes, por exemplo, ganha voz, nem que seja para dizer como ela mesma não se arrisca a se responsabilizar pelos próprios atos, entregando-os ao acaso. Mas, por outro lado, a vã preocupação em garantir contornos aos personagens pode ter feito com que a roteirista-diretora não desse conta do recado quando se trata de direção de atores. Keira está mega apagada (diria que fez um quase regresso para a época que ainda era uma mocinha inexperiente), Sam Worthington é um eterno homem de cera, Eva Mendes... bem... continua linda, e Guillaume Canet (que foi recentemente pai do filho de Marion Cotillard), possui um carisma forçoso.

Com todas essas potências (discutir infidelidade entre adultos e personagens desenvolvidos), mas que, por outro lado, chega a ser decepcionante e com o elenco enfraquecido, é que vos digo que, quando se trata de “Apenas uma Noite”, os grandes traídos dessa história toda somos nós mesmos. 


terça-feira, 26 de junho de 2012

Hannah e Suas Irmãs [1986]

poster filme hannah e suas irmãs woody allen 1986

(de Woody Allen. Hannah and Her Sisters, EUA, 1986) Com Mia Farrow, Michael Caine, Barbara Hershey, Dianne Wiest, Carrie Fisher, Max von Sydow, Julia Louis-Dreyfus, Maureen O'Sullivan, Woody Allen. Cotação: *****

Filme de Woody Allen sobre três irmãs inteligentes e com crises familiares. Mesmo parecendo improvável, se você, por algum acaso, pensou em “Interiores”, você merece os parabéns, porque deve ser um fã bem conhecedor da obra de Woody Allen. Mas “Hannah e Suas Irmãs”, apesar de ter justamente esse mote resumido em comum, não tem nada a ver com o pesado filme de 1978. Aqui, o que vemos é um drama cômico (está longe de ser uma comédia) com um dos melhores roteiros de nosso mestre que, segundo o próprio, foi fisgado pelo livro “Anna Karenina”, de Léon Tolstoi (1828-1910). Também foi um dos maiores sucessos de bilheteria de Allen. Marca que só foi desbancada pelos mais recentes “Ponto Final - Match Point” (2005) e “Meia-Noite em Paris” (2011).

Com uma belíssima condução de roteiro, somos apresentados às três irmãs que conduzem a história. Hannah (Mia Farrow, de “Simplesmente Alice”), a mais velha, é uma atriz teatral de sucesso casada com o galanteador Elliot (Michael Caine, “Regras da Vida”). Outra irmã é Lee (Barbara Hershey, de “Cisne Negro”), que está emocionalmente confusa por conta de um inesperado relacionamento com o marido de Hannah, a sua própria irmã. Lee é casada com Frederick (Max Von Sydow, de “O Exorcista”), seu ex-professor. Por último, ainda tem a problemática Holly (Dianne Wiest, de “Edward Mãos de Tesoura”), uma ex-viciada em cocaína que tenta encontrar talento para ser uma atriz da Broadway ou fazer seu restaurante dar certo.

Em meio a isso tudo, Woody Allen interpreta Mickey, ex-marido de Hannah. Ele - como todo hipocondríaco - se desespera pela chance de ter um tumor cerebral após perceber que está perdendo a audição em um dos ouvidos. Woody faz, portanto, um filme para si em meio à conturbada relação de Hannah e suas irmãs, sendo responsável pelo alívio cômico. Tem até piadas que funcionam (graças à Allen, claro), mas de modo geral, às cenas mais complexas, como o término da relação entre Lee e Frederick, são a prova de que “Hannah e Suas Irmãs” tem mais camadas do que podíamos imaginar. Voltando a falar do personagem de Woody, a prova de que ficou com ele os melhores momentos do longa é a sua busca por um sentido na vida, onde ele acredita estar na religião. São visitas a padres e hare krishnas, para desespero de seus pais, judeus de tradição.

Partindo para o lado mais dramático da coisa toda, “Hannah e Suas Irmãs” ressalta os riscos que o amor pode representar, graças às armadilhas do nosso coração. Podemos ser felizes atualmente, mas de forma inesperada, poderemos nos envolver com outra pessoa, ou sermos vítimas de uma traição que poderia até ser chamada de “justificável”, mas o próprio filme deixa transparecer que tudo pode ser uma questão de situações criadas. Nós somos totalmente responsáveis por nossos atos, mas o que nos empurra - ou nos contêm - são os acasos. Esses que nos levam ao imprevisível. E é bem isso que nos é mostrado por “Hannah e Suas Irmãs”, um filme que segue a vida dessas mulheres por dois anos, sempre marcado pelas estações do ano tão vivas de Nova York, e os jantares de Ação de Graças. 

Tudo isso é seguido em um filme sem fluxo contínuo, com direito a flashbacks (a edição do filme é espetacular). Outro elogio que não tem como deixar de fazer diz respeito ao elenco. Até Mia Farrow (que muitos consideram fraquíssima) está bem no filme. Dianne Wiest ganhou até Oscar pelo papel, assim como Michael Caine. Wiest, aliás, ganharia sua segunda estatueta poucos anos mais tarde, por “Tiros Na Broadway”, onde também foi dirigida por Woody Allen. Até Max Von Sydow, que aparece bem menos do que eu desejaria, faz um trabalho esplêndido (como na já citada cena do término). Imagino o nervosismo de Allen ao dirigir um grande ator de Bergman, um dos diretores que ele mais venera.

Para terminar com uma curiosidade, em uma das cenas de Ação de Graças, algumas crianças que aparecem são realmente filhos adotivos de Mia Farrow (no filme ela é mãe de quatro). Uma dessas crianças é a coreana Soon-Yi Previn, que mais tarde se tornaria esposa de Woody Allen, numa polêmica relação que dura até hoje.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Primeira Noite de um Homem [1967]


(de Mike Nichols, EUA, 1967) Com Dustin Hoffman, Anne Bancroft, Katharine Ross, William Daniels, Murray Hamilton. Cotação: ****

Pouca gente sabe, mas “A Primeira Noite de Um Homem” foi o primeiro filme a lidar com os questionamentos dos jovens graduados pela ótica dos próprios, sem uma visão mais “adulta”. Não desconsidero o fato de que o graduado do filme em questão está completamente fora da nossa realidade, onde poucos jovens têm a oportunidade de concluir uma faculdade e pensar em como vão começar sua vida trabalhista a partir de então, mas antes disso, ganha um carro do pai logo de cara. Mas isso pouco importa. O filme casa muito bem com os filhinhos de papai americanos que eram ainda mais estimados na década de 60. 

Baseado no livro de Charles Webb, o filme traduz, de maneira poética, os anseios vividos por Ben Braddock (Dustin Hoffman, de “Tootsie”), rapaz que, prestes a completar 21 anos,  acaba de voltar para a casa dos pais com um diploma universitário debaixo do braço.Numa festa de recepção dada pelos seus pais, é atraído pela madura Mrs. Robinson (Anne Bancroft, de “O Milagre de Anne Sullivan”), mulher do sócio de seu pai. Apesar de sua relutância, ele perde a virgindade com a coroa dias depois, mesmo sentindo-se culpado por isso. A situação fica ainda mais complicada com a chegada de Elaine (Katharine Ross, de “Butch Cassidy”), filha de Miss Robinson, que se mostra interessada por Ben.

O triângulo amoroso formado entre Ben, Mrs. Robinson e sua filha, pode até ser o grande mote central de “A Primeira Noite de Um Homem”, mas até mesmo esse título original já apregoa que as melhores partes do filme dizem respeito às cenas entre o desajeitado garoto, tentando resistir aos encantos da predadora Mrs. Robinson. Imaginem o falatório que a obra deve ter causado na época de seu lançamento, já que existe até uma polêmica (para os moldes da época) cena de nudez de Anne Bancroft (1931–2005), arrasando num papel que quase foi de Jeanne Moreau. Brancoft, diga-se de passagem, nunca esteve tão sensual. 

Sendo um dos filmes mais bem desenvolvidos do sempre interessante Mike Nichols (o meu preferido da filmografia dele continua sendo “Closer – Perto Demais”), “A Primeira Noite de Um Homem” rendeu para ele um digno Oscar de Melhor Diretor, mas o filme acabou perdendo o prêmio principal para "No Calor da Noite". Teve algumas outras indicações, inclusive uma de Atriz Coadjuvante para Katherine Ross, que praticamente sumiria da face da terra anos mais tarde. E não posso deixar de elogiar, acima de qualquer coisa, a trilha sonora regada a Simon & Garfunkel, com canções de rock-folk como Sounds of Silence e Mrs. Robinson, lindos exemplos que marcaram época. E nossa memória também. 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Onde os Fracos Não Têm Vez [2007]


(de Ethan e Joel Coen. No Country for Old Men, EUA, 2007) Com Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly Macdonald. Cotação:*****

Não tem como não assistir “Onde os Fracos Não Têm Vez” sem se dar conta de que os Irmãos Coen formam uma das duplas mais infalíveis do Cinema. Creditados no filme como diretores, produtores e até editores (por detrás do pseudônimo Roderick Jaynes), nem precisei de muito tempo para obter a resposta de uma pergunta bem pertinente: Por que, depois tantos roteiros bacanudos como “Gosto de Sangue” e, principalmente, “Fargo”, os Coen se entregaram a uma adaptação? Simples, a novela homônima de Cormac McCarthy tem muito a ver com o trabalho da dupla de diretores, inclusive nos toques do no sense e diálogos cheios de espirituosidade, que povoam o filme de uma forma bastante sólida. 

No deserto fronteiriço entre EUA e México, o corajoso Llewelyn Moss (Josh Brolin, de “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”), ao fazer sua caçada típica a coiotes, encontra um cenário sanguinolento. Uma chacina onde vários latinos estavam mortos, provavelmente por um acerto de contas que não acabara bem. Não demora muito e ele encontra uma maleta contendo dois milhões de dólares. Sem pensar duas vezes, ele pega o dinheiro para si, mas ele não contava que o montante tinha um dono, ou, pelo menos, alguém que se dizia dessa maneira. Trata-se do aterrorizante Anton Chigurh (Javier Bardem, de “Mar Adentro”), um assassino de grande perspicácia. Prevendo o iminente cerco de Llewelyn, o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones, de “MIB”), prestes a se aposentar, teme pelas conseqüências desastrosas desse cenário.

É muito bonito de ver o grande simbolismo que é “Onde Os Fracos Não Têm Vez”. De um modo geral, trata-se do discurso de um xerife que não vê mais melhora num mundo cão em que vive (e que, de certo modo, não é muito distante da gente). O personagem, que é interpretado de forma brilhante por Tommy Lee Jones, aos poucos vai tendo a certeza que já não há, de fato, um lugar seguro para um “fraco” (traduzido de forma questionável do “old man” que consta no original). Com as atrocidades e requintes de crueldade dos quais se depara no seu dia-a-dia, ele sabe que fazer o seu papel é praticamente uma tarefa que não colocará fim em nada. 

Se Tommy Lee Jones faz um trabalho tão soberbo, o que dizer então de Javier Bardem? Dando vida a um dos vilões mais emblemáticos do cinema nos últimos dez anos, o ator espanhol consegue transparecer um perigo bárbaro sem se exaltar um minuto sequer, se utilizando somente de sua voz pesadamente grave, seu semblante fixado e um corte de cabelo que, digamos, colabora ainda mais com seu visual amedrontador. E ainda anda em companhia de um cilindro de oxigênio (daqueles utilizados no abate de gados), para arrebentar fechaduras e matar suas vítimas de uma forma rápida e quase limpa. Com um vilão desses, nem seria preciso uma trilha sonora para criar tensão. 

Aliás, “Onde os Fracos Não Têm Vez” é um ótimo exemplo para afirmar que Ethan e Joel Coen são mestres na arte de criar tensão. E isso sem perder a espirituosidade tão presente nos seus outros filmes (como já destaquei no primeiro parágrafo), podemos nos deliciar com diálogos sensacionais, como quando Llewelyn, ao sair de casa para fazer algo que colocará em risco a sua vida, diz para a esposa.

- Se eu não voltar, diga a minha mãe que a amo.
- Sua mãe está morta – a esposa responde.
- Então eu mesmo direi isso a ela. 

Digno dos Coen, mesmo sendo adaptado tão fielmente do livro de McCarthy. Só lembrando que “Onde os Fracos Não Têm Vez” ganhou o Oscar de Melhor Filme no Oscar de 2008, além de ter faturado outras estatuetas nas categorias de Edição, Roteiro Adaptado e Ator Coadjuvante para Javier Bardem. Como perceberam, o filme fez por merecer.

sábado, 16 de junho de 2012

Voltando com algumas novidades...

Eu sei que faz algumas semanas que não apareço por aqui, mas o tempo apertado realmente foi o grande culpado disso tudo. O fato é que, num blog onde eu sempre atualizava com textos sobre filmes vistos, existe um risco enorme de ficar sem atualizações quando o blogueiro que vos escreve não tem tempo para ver os títulos que vão se acumulando, ou, como algumas vezes acontece, quer assistir alguma coisa, mas sem ter a obrigação de escrever sobre ele ao término da sessão. Isso é bem comum, e quem tem blog sobre cinema sabe como é.

Por isso, eu senti um pouco a necessidade de escrever sobre aleatoriedades que estão acontecendo na minha vida. Claro, acontecimentos que tenham algo a ver com o mundo do cinema e cultura pop em geral.  Mas, enfim, todo esse tempo ocioso aqui no Poses ajudou para que esse post venha com algumas novidades acumuladas que são bem bacanas. Vamos à elas:

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Há umas duas semanas, eu recebi o convite para colaborar no site Cenas de Cinema, um dos portais mais tradicionais do mundo da blogosfera cinéfila. Fui muito bem acolhido pela editora-chefe do site, Cecília Barroso, e sua majestosa equipe. Estreei com a crítica do filme “Solteiros com Filhos”, ótima comédia romântica escrita por Jennifer Westfeldt (“Beijando Jessica Stein”). Tanto essa quando as próximas críticas que forem publicadas lá, você vai encontrar link no nosso (cada vez mais cheio) índice de banco de dados, que se encontra aqui na lateral do blog.

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Outro convite inusitado partiu da PlayTV, canal a cabo dedicado ao público jovem que, num ato louvável, vai estrear o Moviola, uma atração dedicada ao cinema! O primeiro programa vai ao ar nesse sábado, dia 16, às 17h. Cada programa, que vai durar apenas 15 minutinhos, terá sempre um tema a ser discutido, contando com a presença de algum convidado ligado à pauta. A apresentação fica por conta de Rodolfo Rodrigues (foto).

E onde eu entro nessa história?

Bem, fui o convidado para o programa dedicado a Woody Allen. Quem me conhece – o pouco que seja – sabe que é o meu cineasta preferido. Tudo para calhar com a estréia do novo filme do mestre. Intitulado “Para Roma, com Amor”, esse novo trabalho (que vem depois do sucesso estrondoso que foi “Meia-Noite em Paris”) chega às nossas telas no próximo dia 29 (veja o trailer aqui). Eu, é claro, estou com boas expectativas, mesmo tendo que engolir Roberto Benigni. Quando o programa estiver disponível, eu postarei aqui no blog.

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Por último e não menos importante, posso dizer que estou trabalhando em um projeto interessantíssimo que envolve justamente Woody Allen! Mas, nesse caso, eu já não posso entrar em muitos detalhes, pelo menos por enquanto, pois estou ainda amadurecendo a ideia. Qualquer coisa, o blog será o primeiro meio que utilizarei para divulgar.

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Logo, logo, solto posts sobre “Onde os Fracos Não Tem Vez” e “A Primeira Noite de Um Homem”, filmes que, apesar de serem totalmente diferentes, são ambos ótimos.

Até mais!

terça-feira, 22 de maio de 2012

Thelma & Louise [1991]


(de Ridley Scott. Idem, EUA, 1991) Com Susan Sarandon, Gene Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald, Stephen Tobolowsky, Brad Pitt. Cotação: ****

De volta a minha já rotineira revisita aos filmes que me encantaram há alguns anos atrás, peguei “Thelma & Louise” pra rever em casa. Continua sendo um grande filme, é verdade, mas cheguei a reparar (até por mais de uma vez) algumas cenas que não se encaixavam com o filme em si. Reconhecido como um dos filmes mais feministas do cinema nos anos 90, o longa trouxe Geena Davis e Susan Sarandon (duas grandes atrizes que representaram a época em que o filme foi lançado) em atuações magníficas, representando mais que duas mulheres, mas verdadeiros símbolos de uma repressão que a figura feminina ainda custa a tentar sair.

Louise (Susan Sarandon) é uma garçonete cansada da rotina, e é pra fugir desta, que chama sua amiga Thelma (Geena Davis) para uma viagem de fim de semana. Thelma, ao contrário da amiga, é uma esposa dedicada, casada, cujo esposo não lhe dá o mínimo valor. Mesmo assim, elas partem a bordo de um Thunderbird 66, viajando pelas estradas do Arkansas. Até que uma tentativa de estupro que se agrava em um assassinato acaba fazendo com que elas mudem a rota da viagem. E o que era para ser uma aventura “inocente”, acaba se tornando uma fuga que elas abraçarão até as últimas consequências.

Dizer que o filme é feminista por excelência não chega a ser um exagero. Para começar, trata-se de um filme de Ridley Scott, que embora (obviamente) não seja uma mulher, comandou “Alien, o Oitavo Passageiro” (1979) trazendo a agente Ripley (Sigourney Weaver) como um dos maiores ícones da cartela de personagens feministas. Como se não bastasse o nome de Scott, a roteirista de “Thelma & Louise”, a texana Callie Khouri (que nunca mais foi vista, diga-se de passagem) chegou a arranjar brigas com uma série de gente questionando o teor “anti-homem” do filme, o que ela negou veementemente, apesar de assumir que a força feminina é o motor da história.

Aliás, é esse “motor” que trouxe alguns obstáculos para o próprio filme se assegurar. Em alguns momentos da viagem, somos deslocados para uma espécie de “história-para-servir-de-alívio-cômico”, envolvendo um caminhoneiro e nossas protagonistas. Esses devaneios, além de totalmente dispensáveis, ainda não justifica algo que poderia ser melhor aproveitado, que é a própria figura feminina em detrimento da masculina, que não necessita de explosões e cara de “poderosa” empenhando uma arma.

Mas justiça seja feita. Quando se trata de figuras poderosas, não poderia existir melhores intérpretes. Recentemente, ao falar sobre “O Turista Acidental”, eu deixei até muito presente no texto a minha tristeza ao me deparar com o atual ostracismo de Geena Davis, uma atriz que tinha tudo pra decolar. E Susan Sarandon, com seus olhos tão expressivos que poderia muito bem reviver Bette Davis, torna a parceria com Geena muito bem dosada, que a levaram è dupla indicação ao Oscar de Melhor Atriz. 

E não tem como terminar esse texto sem falar do glorioso final. Muita gente ainda cita “Thelma & Louise” quando o assunto é final inesquecível. De fato, finais surpreendentes são muito bem vindos. Mas nesse caso, a coisa ainda vai muito mais além. Não há nada melhor do que terminar o filme vendo os personagens principais tendo um desfecho direcionado a tudo o que tinham provado na história, num final muito bem justificado. E é por isso que “Thelma & Louise”, no final das contas, ainda é um grande filme.  

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Show de Truman [1998]


(de Peter Weir. The Truman Show, EUA, 1998) Com Jim Carrey, Laura Linney, Noah Emmerich, Natascha McElhone, Paul Giamatti, Ed Harris. Cotação: *****

Lembro muito bem de quando eu assisti “O Show de Truman” pela primeira vez. Desde já, eu o considerava um dos roteiros mais originais que conheci, e sabia que continuaria com essa impressão por um longo tempo. E é exatamente isso que me convenci, pegando o filme pra assistir novamente muitos anos depois. Sabe aqueles filmes que você assistiu há muito tempo, mas que você nunca esqueceu? “O Show de Truman” é um desses pra mim. Eu era capaz de premeditar situações e até citar algumas falas, me garantindo na memória cinematográfica que muitos cinéfilos têm. Mas nem por isso deixei de me divertir com a nova visita. Bons filmes merecem – e devem – ser revistos sempre. E não tem como não embarcar na idéia.

Truman Burbank (Jim Carrey, de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças") não sabe, mas ele é estrela de um dos realities shows mais populares dos EUA. Desde que ainda era um feto, sua vida foi acompanhada por milhares de câmeras. Na ilha de Seahaven ele cresceu, e prestes a completar 30 anos, é um insatisfeito vendedor de seguros, casado com uma enfermeira - Meryl (Laura Linney, "Kinsey - Vamos Falar Sobre Sexo") – mas que nunca esqueceu o rosto de Lauren (Natascha McElhone, de "Ronin"), uma garota que ele conheceu na juventude e nunca mais foi vista. Assistido por uma platéia interessada em cada passo que dá, ele mal se dá conta de que sua vida é televisionada, sua rotina não passa de um roteiro, sua mulher, amigos e familiares são todos atores, e sua cidade é um grande estúdio de TV, com todo aquele clima de conspiração, já que ele é o único que não se conhece de fato. Até que a idéia de sair do lugar onde vive pode colocar em risco os planos de Christof (Ed Harris, de "As Horas"), criador do programa, que tem em Truman o seu grande experimento. 

Na segunda metade dos anos 90, o cinema passou a retratar a sociedade americana, que estava ficando cada vez mais ligada à televisão, uma população ávida pela vida alheia, e em programas que exploravam ao máximo as graças e desgraças do cidadão norte-americano. Para citar outro caso, eu me lembro de um filme chamado “Ed TV” (1999), produção com Matthew McConaughey, Jenna Elfman e Woody Harrelson no elenco, retratando a decisão de um cara comum, que decide aceitar a oferta de ter uma câmera 24 horas na sua cola, para se tornar um programa de TV fora dos padrões. Fica evidente que, além de espectadores vorazes, os americanos estavam, por decorrência, se tornando exibicionistas. “Ed TV” e “O Show de Truman” são os dois lados dessa mesma moeda, e, embora o filme de 99 não tenha feito sucesso, é um ótimo contraponto para o filme que Jim Carrey evolui partindo para o gênero dramático.

E Jim Carrey, mesmo estando excelente no papel, quem rouba mesmo o filme é Ed Harris. Fazendo um megalomaníaco capaz de quase tudo para manter Truman encapsulado naquele mundo de fantasia, ele possui um discurso até interessante para justificar os seus atos e tentar convencer Truman (e nós) de que sempre quis o melhor para sua (quase) criatura. “As decepções daqui [de Seahaven] são as mesmas que as de lá [da porta da cidade pra fora]. A diferença é que aqui você está protegido”. Lindo e questionável. Boninho deve ter ficado maravilhado com isso.

O principal fator para que eu continue reafirmando que “O Show de Truman” é genial é mesmo seu roteiro. Escrito por Andrew Niccol (“S1mone”, “O Senhor das Armas”, entre outros), o texto é milimetricamente fabuloso. E a certeza está nos detalhes. Em dado momento, vemos, quase que passando despercebido, que os personagens da história de Truman tomam cápsulas de vitamina D. Ora, se até o céu de Seahaven é um grande complexo de iluminação artificial, faz todo o sentido que os habitantes tenham que repor a vitamina D de alguma forma. E o que eles fazem para manter Truman sempre na mesma cidade? Simples, fazendo com que ele tenha pânico de embarcar em barcos ou aviões, através de situações que causaram traumas no cidadão. Explicação que se não é genial, é, ao menos, muito bem amarrada na proposta do filme, o tornando assim aceitável.

“O Show de Truman” concorreu a três Oscar, nas categorias de Roteiro Original (e veja que perdeu para “Shakespeare Apaixonado”, numa das provas de que esse filme consegue proezas inacreditáveis quando se trata lobby artístico), Ator Coadjuvante para Ed Harris, e Diretor para Peter Weir, profissional de grande nome, que infelizmente (ou não) trabalha pouco, mas sempre mantendo bons títulos. Na década passada, lançou apenas dois filmes: "Mestre dos Mares - O Lado Mais Distante do Mundo" (2003) e "Caminho da Liberdade" (2010). Se for pra ter alguns períodos de jejum para nos entregar filmes interessantes... Que assim seja.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Que é Isso, Companheiro? [1997]


(de Bruno Barreto. Idem, Brasil, 1997) Com Alan Arkin, Fernanda Torres, Pedro Cardoso, Luiz Fernando Guimarães, Cláudia Abreu, Nelson Dantas, Matheus Nachtergaele, Marco Ricca, Caio Junqueira, Selton Mello, Eduardo Moscovis, Fernanda Montenegro. Cotação: *****

Não escondo de ninguém a minha adoração por qualquer filme que retrata o período negro da ditadura aqui no Brasil. Curiosamente, filmes nacionais que abordam esse recorte histórico direta ou indiretamente, acabam se tornando bons filmes (vide, por exemplo, “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” e “Batismo de Sangue”). Isso comprova que brasileiro não precisa, necessariamente, mostrar favela ou seca nordestina pra provar que conseguem fazer bons filmes. “O Que é Isso, Companheiro?” é cinema de primeira linha, feito por um dos integrantes da família mais importante do cinema brasileiro: Bruno Barreto. 

No Rio de Janeiro, em setembro de 1969, um grupo de jovens do movimento estudantil, cansados da repressão imposta pelo governo militar que vigorou no nosso país entre 1964 e 85, e sem meios de se expressar por conta da censura que a imprensa vinha enfrentando, resolve pôr em prática um plano audacioso. Intitulado Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), os estudantes aproveitam a estada de Charles Elbrick, um importante embaixador americano (interpretado por Alan Arkin) ao país para seqüestrá-lo. As exigências para o resgate são, entre outras coisas, uma carta lida em rede nacional, e a absolvição de 15 companheiros políticos, que estão sob as torturas do temível AI-5. Enquanto o plano corre com sucesso, o Governo busca de todas as formas, descobrir quem são esses jovens, que abdicaram de suas vidas para se lançarem na luta armada.

Com um elenco estelar, que traz ainda a participação do ganhador do Oscar Alan Arkin (de “Pequena Miss Sunshine”), “O Que é Isso Companheiro?” já fica em destaque por conta de seu crédito de atores. De início, chega a ser estranha a presença de Luis Fernando Guimarães e Fernanda Torres, casal de atores que são disparados um dos mais engraçados do cinema e da TV brasileira. Mas nada que uma boa caracterização não resolva. Fernanda, aliás, já se mostrou uma atriz de talento imensurável, capaz de compor personagens fortes e inesquecíveis, completamente fora do viés cômico (“Com Licença, Eu Vou à Luta” e “Casa de Areia” nos dão essa certeza).

“O Que é Isso, Companheiro” foi baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, icônico líder esquerdista, que participou ativamente do histórico seqüestro de Charles Elbrick. O livro venceu o Prêmio Jabuti de literatura, sendo um dos trabalhos literários mais importantes de Gabeira, que hoje também é conhecido como um dos políticos mais polêmicos de sua geração, e também em um dos fundadores do Partido Verde. A versão para o cinema também conseguiu importantes êxitos. Adaptado por Leopoldo Serran (1942–2008), que também trabalhou em jovens clássicos nacionais como "O Quatrilho" (1995) e "Bye Bye Brasil" (1980), o filme chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, perdendo para o holandês - e hoje esquecido - “Caráter”. Lá fora, é conhecido como “Four Days in September, aludindo à data do ocorrido apresentado no filme.

Válido para toda e qualquer pessoa interessada em uma das fases mais importantes – e cinematográficas – de nossa História, “O Que é Isso Companheiro?” mostra, da forma mais inteligente (mantendo o espectador a todo minuto interessado na história), quais as motivações desses corajosos estudantes, que fizeram todo o possível para construir um país de desbravadores. Se valeu a pena ou não, resta a nós, a atual geração, refletir e avaliar. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Shame [2011]


(de Steve McQueen. Idem, EUA, 2011) Com Michael Fassbender, James Badge Dale, Nicole Beharie, Carey Mulligan. Cotação: ****

Depois de assistir “Shame”, fica até meio óbvia a razão pela qual Michael Fassbender foi sumariamente ignorado pelo Oscar desse ano. Não é segredo que a Academia seja puritana (exemplos históricos estão aí para comprovar), e um filme como esse, onde o sexo é condição latente do protagonista, fica nítida a ojeriza que o filme possa ter causado entre os acadêmicos mais tradicionalistas. O que é uma pena. Não só por Fassbender, mas o filme como um todo tem uma carga a mais de charme, plasticidade e um bom trabalho de direção, que fica até chato diminuir o filme como “aquele que tem Michael Fassbender pelado e fazendo muito sexo”. Eu até peço permissão para comparar o trabalho do ator sensação de 2011 com o que Marlon Brando fez em “Último Tango em Paris”, grande clássico do mestre Bertolucci. 

O tão comentado trabalho de Fassbender foi dar vida à Brandon (Michael Fassbender), um homem aparentemente comum, trabalhando em uma empresa de negócios, que possui um amplo apartamento em uma ótima região. Mas o que Brandon não sabe, ainda, é que o fato de dar prioridade ao seu prazer sexual pode ser um problema sério. Ele se masturba o quanto pode, adora contratar prostitutas, flerta com o máximo de desconhecidas possível para garantir qualquer rapidinha e é assíduo consumidor de pornografia, a ponto de ter uma pesada coleção de revistas e DVDs, e deixar o computador do trabalho corrompido de tanto material pornográfico contido.  Ele só começa a se dar conta de uma comprovada compulsão sexual após a chegada da irmã – a problemática cantora Sissy (Carey Mulligan) - em sua casa. Desse reencontro, uma inevitável relutância de Brandon em se dar conta que o seu prazer se tornou uma obsessão.

Assistindo a “Shame”, é possível fazer todo um traçado para comparar Brandon a qualquer outro viciado em uma droga, digamos, mais devastadora, segundo a sociedade. Ele, ao encarar uma moça numa típica viagem de metrô ao trabalho, parece se deparar com o seu objeto de desejo como um chacal observa uma gazela, com um instinto animal atravessando o seu olhar a ponto incomodar a própria moça, que antes retribuía o olhar como flerte. Outra comparação possível é a própria deterioração da personalidade do protagonista, e a sua sensação de saciedade emaranhada com culpa pós-coito. Brandon é um galã, e é nítido que ele não vê dificuldades em encontrar a sua droga, já que ela é oferecida sem grandes problemas, e ainda assim, ele demonstra preferir prostitutas e sexo anônimo, em detrimento de uma relação considerada normal. Todas essas comparações e algumas conclusões só podem ser resultantes do bom trabalho de Steve McQueen, que já dirigiu Fassbender no angustiante "Hunger" (2008), e aqui trabalha com roteiro de Abi Morgan (do questionável "A Dama de Ferro").

E não dá pra deixar de dizer que Michael Fassbender está impecável no papel. O ator alemão consegue fazer algo que parece simples, mas é bem o contrário. Fazer cenas de sexo (as mais fortes possíveis), no caso de “Shame”, não pode – e nem deve - ser excitante. A linha é bem tênue. Estamos falando do drama de um cara compulsivo sexualmente que vai se degradando. E, embora o nu frontal esteja ali, de início, para chamar a atenção do público ansioso, aos poucos nos deparamos com cenas de sexo que incomoda não só os representantes da ação, mas a nós mesmos, que abandonamos a posição de voyeur para ser quase um cúmplice. Nesse quesito, são quase inseparáveis os méritos de Brandon e de McQueen. Este último, por sinal, em aspectos pontuais, sofreu do mal do cinema-artístico-pedante, com seus diálogos de efeito, uso de cores como chamariz primário (o vermelho do sangue, por exemplo), e longas plano-sequências, que me incomodou, especificamente, na cena em que Mulligan canta uma versão devagar-quase-parando de New York, New YorkzZzZzZzZz...

“Shame”, desnudo de polêmicas, é um filme com um potencial incrível, e traz Michael Fassbender capaz de arrancar aplausos, e, porque não dizer, suspiros. 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Ganhar ou Ganhar - A Vida é Um Jogo [2011]


(de Thomas McCarthy. Win Win, EUA, 2011) Com Paul Giamatti, Amy Ryan, Bobby Cannavale, Jeffrey Tambor, Burt Young, Melanie Lynskey, Alex Shaffer, Margo Martindale. Cotação: ***

Tenho muita simpatia pelo ator Paul Giamatti. Não chega a ser uma grande estrela, e seu tipo pacato, praticamente loser, não o torna mais camaleônico, tendo que se situar em personagens até mais humanos. Pra quem ainda não viu, “Sideways – Entre Umas e Outras” (2004) é a prova de que ele cai muito bem em papéis de homens que passam por crises existenciais, tendo que se habituar em uma vida rotineira, sempre com aquela cara de insatisfação e stress. “Ganhar ou Ganhar - A Vida é Um Jogo” repete a mesma fórmula, mas num tom mais moderninho. O filme, apesar da pompa cool, no fundo chega a até ser convencional. E percebemos isso quando vemos o seu desenvolvimento calculado, mas que termina corrido e satisfatório para o senso comum.

Em Nova Jersey, Mike Flaherty (Paul Giamatti), um advogado em crise financeira, continua na tentativa de levar um time de wrestling - composto por jovens tapados e do qual é treinador – para frente. Além disso, ele vê uma oportunidade de ganhar um dinheiro extra ao se tornar tutor de um velhinho que era seu cliente, evitando assim que o Estado o mande para uma clínica de idosos. O fato é que ele acaba mandado o senhor para a clínica de qualquer forma e embolsando dinheiro. Com a chegada do neto do ancião, o jovem Kyle (Alex Shaffer), as coisas parecem ficar ainda mais encaixadas, já que o adolescente parece ser um integrante de peso para o time de wrestling dele. O que pode atrapalhar o andamento das coisas é a chegada da mãe de Kyle, que acaba de sair da clínica de reabilitação, e vai tentar retomar os laços familiares com o filho e o pai. 

Eu sempre me incomodo com uma coisa até comum em filmes e séries americanas, e parece que o filme abraçou isso com a maior naturalidade. Por que homens tão complicados quanto é o personagem de Giamatti são casados com mulheres tão perfeitinhas? Aqui, a mulher do protagonista (interpretada por Amy Ryan) é linda, compreensível, leal e sensata. Em muitos pontos, chega a ser o centro de equilíbrio de muitas situações no filme. Mesmo que seja bonito de se ver (e até concordo que isso possa existir em algum lugar), chega a ser um pouco fora da realidade, e para um filme que tenta ficar mais próximo de um drama tradicional, isso parece ser um empecilho. Claro que isso não compromete o filme como um todo, mas é um elemento que sempre me intriga.

Uma coisa boa do filme, além da história ser razoavelmente bem encaminhada, são as boas presenças de alguns coadjuvantes. A mãe de Kyle, por exemplo, é interpretada pela neozelandesa Melanie Lynskey, uma ótima atriz que foi parceira da então iniciante Kate Winslet no filme "Almas Gêmeas" (1994), um dos primeiros trabalhos de Peter Jackson, em um dos filmes que me marcou bastante. Outra aparição de destaque é a de Margo Martindale, atriz que não tem muitas chances no cinema, mas que conseguiu participações memoráveis em séries de TV como “Dexter” e “Justified”, esta última chegou a lhe render um Emmy no ano passado. Como se vê, o filme não tem só Paul Giamatti pra garantir a boa escalação de elenco.

Como já semeei ao longo do texto, “Ganhar ou Ganhar - A Vida é Um Jogo” é um filme que aposta no novo cinema que caminha a poucos passos do indie, mas que possui elementos suficientes para encaixá-lo numa dramédia convencional, dessas que existe aos montes, e que sempre escolhemos na vídeo-locadora por não ter opções melhores. Falando em home vídeo, o filme não chegou a ser exibido nos cinemas por aqui, o que significa que poucos souberam de sua existência, o que pode ser uma pena, pois o que funciona são justamente suas obviedades. “Win Win” (no original) é escrito e dirigido por Thomas McCarthy, também conhecido como ator, mas que escreveu roteiros de filmes como "Up - Altas Aventuras" (2009) e "O Agente da Estação" (2003). 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Cinema Verite [2011]


(de Shari Springer Berman e Robert Pulcini. Idem, EUA, 2011) Com Tim Robbins, Diane Lane, Willam Belli, Thomas Dekker, Patrick Fugit, James Gandolfini. Cotação: ****

O chamado Cinema Verité (ou “cinema verdade”) sempre foi algo que atraiu muitos produtores. Mas no início dos anos 70, no pré-estabelecimento da televisão aberta numa sociedade cada vez mais consumista, unir esse conceito à televisão poderia não só ser um sucesso estrondoso, como também culminaria em uma nova categoria de programas televisivos: o reality show. Isso aconteceu na rede de televisão PBS com a família Loud. Um verdadeiro fenômeno repercutiu e levantou questões  que perduram até hoje. Até onde vão os limites da privacidade? O que nos diz respeito a vida alheia, e por que ela é tão levada ao centro da conversa? Deveríamos acreditar num “show de realidade”? 

“Cinema Verite” é mais do que um filme que apresenta essas questões da forma mais didática possível, mas é também uma grande dramatização da gênese do tal reality show, que tanta gente se diz entendido, mas que não sabe da missa a metade.

Em 1971, o produtor Craig Gilbert (James Gandolfini) busca uma típica família americana para ir adiante com a sua idéia de filmar o cotidiano dos seus integrantes, com o auxílio de uma câmera e ver qual o efeito que isso se dá nos espectadores, levando em consideração algumas experiências feitas para estudos de sociedades desconhecidas nos anos 20. Ele encontra os Louds, uma família emergente de Sta. Barbara, Califórnia, liderada pela interessante Pat (Diane Lane) e seu marido Bill Loud (Tim Robbins). A casa ainda conta com cinco filhos. Dois deles na insistência de montar uma banda de rock, duas garotas adolescentes, e Lance (Thomas Dekker), o mais controverso, que acaba de se mudar para Nova York. O dia-a-dia dos Louds deu origem a um programa de TV, que foi exibido em 12 episódios pela rede PBS em 1973, dois anos depois de uma verdadeira crise instalada entre eles, que ficou de portas abertas para o conhecimento público. 

Nesse caso real (a verdadeira família Loud chega a ser apresentada no final do filme) acendeu uma grande confusão já na sua época, sobre o olhar que os próprios americanos estavam se dando, ilustrado por aquela família que, entre outras coisas, foi acusada de ser exibicionista, desestruturada e oportunista. Craig Gilbert, que afundou sua carreira nesse projeto, poderia até ter uma idéia interessante, e escolheu uma família certeira para isso. Aparentemente sem nenhum problema, a família Loud, de cara, já possui algumas rachaduras em seu teto de vidro. Bill, o patriarca, demonstra não ser um marido fiel, e Lance, o filho mais velho, saiu da casa dos pais para extravasar sua liberdade sexual, sendo ele gay e desentendido em casa. Daí, já se vê um prato cheio para os burburinhos da população que assiste, atônita, a degradação da família vendida pelo american way of life.

Mas o que é preciso para que o programa aconteça? Afinal, esses problemas ficavam ali, sob a cegueira conveniente de Pat, sem que venham à tona. Daí que entra a intervenção de Gilbert, para que os problemas apareçam. É preciso ultrapassar os limites da intromissão e intervir diretamente no seu próprio produto. Essa é a tal da manipulação nos “shows de realidade” para que os fatos sejam inflamados. Essa intervenção do produtor/diretor e a edição muitas vezes inescrupulosa, hoje em dia, são usadas por muitas pessoas ao seu favor (é só ver exemplos das várias edições do Big Brother e afins), mas no contexto da família Loud, o que aconteceu foi uma ingenuidade extrema. A família não sabia se estava preparada para tamanha exposição. Quando se trata de tudo o que envolve figura pública, estar em evidência é estar exposto à qualquer coisa. 

“Cinema Veríté” é um bom filme justamente por encandear essas questões de forma muito bem realizada, contando com um elenco afiadíssimo, que conta com Tim Robbins (“Sobre Meninos e Lobos”), Diane Lane (“Infidelidade”) e James Gandolfini (“Os Sopranos”).  Trata-se de mais uma produção HBO, que faz questão de nos lembrar que não estamos vendo televisão, mas uma obra que se encaixa muito bem no poder qualitativo de uma obra para o cinema. E vos digo: o filme não deve em nada às produções de cinema, pois é super ágil, funciona maravilhosamente bem, tem toda uma aura setentista com sua direção de arte impecável ao som de “Little Dream of Me” de The Mamas and the Papas. Demorei pra conferir este filme que fincou três indicações no último Globo de Ouro, e revela um retrato triste de uma família que, apesar da ingenuidade, foi muito corajosa.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sex and the City - O Filme [2008]


(de Michael Patrick King. Sex and the City, EUA, 2008) Com Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis, Cynthia Nixon, Chris Noth, Jennifer Hudson, David Eigenberg. Cotação: ***

Grande sucesso na TV Americana, “Sex and the City” fez história ao retratar a amizade de quatro mulheres cosmopolitas na onipresente Nova York. A série de TV, baseada no livro de Candace Bushnell, e que durou 6 temporadas entre 1998 e 2004, chegou a ser levantada como um retrato das novas mulheres balzaquianas, fashionistas e workaholics. Se isso é verdade ou não, isso depende da sua visão de mundo. Eu acompanhei - se não me engano - todas as temporadas da série (assistindo episódios aleatórios), e confesso que eu me divertia mais pelo simples fato de tudo aquilo ser irreal até para as nova-iorquinas, do que por ter tomado como um olhar aproximado de uma nova abordagem das mulheres de hoje. Visto isso, esse filme soa até desnecessário por um ponto, mas muito justificável por outro, já que era uma idéia pensada desde o momento em que a série foi finalizada (demorou pra acontecer por questões de negociação de salários), e claro, para conceder a alegria dos verdadeiros fãs do programa. E eles, eu acredito, saíram mais do que satisfeitos com o que viram. 

Isso porque o filme retoma a história alguns anos após a series finale de “Sex and the City”. Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) continua sendo uma colunista de sucesso e namorando o galante Mr. Big (Chris Noth). Só que após dez anos de relacionamento, eles decidem casar-se por uma questão de conveniência. Agora Carrie terá que mudar-se de seu pequeno apartamento, depois de viver ali por vinte anos. As suas amigas estão um pouco mais estáveis. Charlotte (Kristin Davis) está vivendo o sonho do casamento e com uma filha adotiva, a advogada Miranda (Cynthia Nixon) vive com o marido e o filho, e até a fogosa Samantha Jones (Kim Cattrall) está entregue a um relacionamento (monogâmico!) de cinco anos com um badalado modelo. Mas isso não quer dizer que não tenham seus problemas. Com exceção de Charlotte, todas elas possuem algumas pendências pessoais para resolver. E isso vai surgindo antes, durante e após a organização do casamento de Carrie, anunciada como a “última garota solteira” pela conceituada revista Vogue. 

A crise dos 40 anos nunca foi tão ridicularizada em alguns momentos. Eu, sinceramente, não acredito em discussão de valores quando os exemplos que estou vendo são mulheres que podem dar mais valor a um botox de que a um casamento feliz, ou um casamento feliz em detrimento de seus questionamentos pessoais (Charlotte vive num conto de fadas que dá pena, e dizer que NUNCA se sente triste é de uma anestesia emocional que lhe garante o título de “a resignada do quarteto”). E Carrie, que parecia ser a mais centrada de todas (já que é a mais observadora), se ilude com um casamento de holofotes, um closet gigante, e vestidos de noiva assinados pelos estilistas mais respeitados. Porém, mesmo com tanta futilidade, sim, é possível encontrar bons elementos, como, por exemplo, o tom devidamente episódico do filme. Isso, para o fã da série, é a grande sensação. E nem é preciso ver a fita para perceber isso. O diretor Michael Patrick King não tem qualquer experiência no cinema e, mesmo que tivesse, não poderia avançar mais do que o permitido em uma “adaptação”. 

O filme tem outros defeitos até gratuitos, como o preconceito com o México (nesse caso, até tem uma intenção, causar risos com uma desinteira) e com os negros. Além de reavivar as delícias de ser uma mulher rica e branca numa grande cidade, eles acrescentam uma personagem negra (interpretada pela atriz e cantora Jennifer Hudson) para servir de muleta diversificada. Ela entra, enrola, recheia a trama com mais inutilidades (ama uma bolsa de marca) e sai sem fazer falta alguma. Tudo isso pra desaguar no talvez pior defeito do filme: ser longo demais. Ter quase 2h30 de duração pode ser maçante para alguns, mas – eles de novo – os fãs nem vão sentir esse tempo passar. É importante lembrar que, a partir disso, os capítulos da série tinham vinte minutos em média. Se “Sex and the City – O Filme” queria era mesmo atingir os adoradores órfãos da série, não há mal algum nisso. É compreensível e gerou resultados, já que foi um grande sucesso de bilheteria, garantindo uma seqüência dois anos mais tarde.

E ainda dá tempo para dois avisos:

Fãs de “Sex and the City”: saibam que o filme é totalmente para você. 

Haters de “Sex and the City”: é bom saber que odiar tanto alguma coisa e, mesmo sob aviso, queira assistir o filme só pra falar mal, saiba que você também é um ser levado por uma paixão, logo, não os tornam assim tão diferente dos fãs. 

O que sobra, portanto, é um filme que não irá desvirtuar nenhuma dessas duas turmas. 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Uma Vida Melhor [2011]


(de Chris Weitz. A Better Life, EUA, 2011) Com Demián Bichir, José Julián, Nancy Lenehan, Gabriel Chavarria, Carlos Linares. Cotação: **** 

Filme sobre o sonho americano representado por imigrantes ilegais não deixa de ser um daqueles clichês recorrentes. Dentre tantos títulos que podem servir como exemplo, lembro bem de "Terra de Sonhos", filme de 2002, protagonizado por Samantha Morton. Neste caso em específico, uma família de irlandeses vai morar ilegalmente num apartamento humilde nos EUA, passando pelos maiores perrengues, mas sempre com um mínimo de satisfação por estarem planejando um sonho que parece ser conseguido somente por estarem naquele lugar. “Uma Vida Melhor”, guardadas as devidas proporções, trata do mesmo tema, em uma obra na qual os momentos felizes são pontuais, e as dificuldades de uma vida beirando a tragédia se faz presente em cada centímetro da película. 

No subúrbio de Los Angeles, o mexicano Carlos Galindo (Demián Bichir) tenta ganhar a vida como pode, fazendo das tripas coração para se manter num país onde mora ilegalmente, numa vida de riscos junto ao seu filho adolescente, Luis (José Julián), de 14 anos. Este, por sinal, pouco se importa se seu pai precisa trabalhar exaustivamente como jardineiro, porque sabe que o máximo que ele vai conseguir é exaustão, num meio onde os jovens mexicanos precisam, como aparente melhor opção, juntar-se a gangues latinas na periferia norte-americana que não são comandadas por negros. Carlos, um homem íntegro e batalhador, terá que enfrentar as piores situações quando tem suas ferramentas roubadas por um homem em que ele julgava ser íntegro como ele, sempre com o perigo da deportação batendo à sua porta. 

Todos já devem saber que a grande carta do filme está na indicação de Demián Bichir como melhor ator no Oscar 2012, tirando a vaga que estava sendo disputadíssima entre Ryan Gosling (por “Drive” ou “Tudo pelo Poder”) e Michael Fassbender (por “Shame”), dois dos maiores destaques do cinema no ano passado. Ver Bichir entre os finalistas foi uma grande surpresa, ainda mais se levar em consideração suas chances praticamente mínimas. O ator, de fato, faz um trabalho excelente, embora eu tenha ficado um tempo – por menor que fosse – para desassociar sua imagem da série “Weeds”, onde interpretou um chefão de um cartel de drogas mexicano, que perseguiu Nancy Botwin por uma temporada inteira. Terminado o filme, Demián Bichir já estava com um conceito supra elevado, graças ao seu trabalho simplório, mas que continha uma carga que me emocionou bastante. 

Já um ponto do próprio filme que o faz ser tão bom é a contraposição entre pai e filho, que inicialmente pouco se relacionam, mas que vão ganhando uma interação comovente. Luis, o típico aborrecente que não dá o devido valor da luta social que seu pai enfrenta, chega até a desdenhar de suas raízes chicanas. Fica a cargo do seu próprio pai resgatar as lembranças culturais e familiares do menino, em duas ou três cenas de conversa que acabam sendo as melhores do filme. Isso sem contar as diferenças até mesmo entre as personalidades dos dois. Carlos, o pai, é daqueles que chega a se auto-humilhar diante de algumas situações que exigem uma luta pela sobrevivência ou ter que demonstrar sua raiva. Já Luis, o filho, é mais levado por essa raiva, e, por conseqüência, é menos racional. E cada um traz a sua cota de humanidade para representar-se como personagem.

“Uma Vida Melhor” é dirigido Chris Weitz, um cara no sense que foi realizador de “Um Grande Garoto” (filme de 2002 que ele dirigiu ao lado de seu irmão Paul Weitz) e também dirigiu a segunda parte do caça-níqueis “Crepúsculo”. Em meio a tantas incoerências, “Uma Vida Melhor” comprova o seu talento escondido em algum lugar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Drive [2011]


(de Nicolas Winding Refn. Idem, EUA, 2011) Com Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Oscar Isaac, Christina Hendricks, Ron Perlman. Cotação: **** 

O canadense Ryan Gosling se confirmou como o astro da vez no ano de 2011. Não é exatamente uma revelação. Trabalhou na TV em boa parte dos anos 90, e sua primeira aparição em um filme conhecido foi em “Duelo de Titãs” (2000) ao lado de Denzel Washington. Na última década, foi crescendo de uma forma elogiável, conquistando até indicação ao Oscar de melhor ator por seu problemático papel em “Half Nelson” (2006), e a partir daí, foi um papel prestigiado atrás de outro. Dos mais recentes, ele fez trabalhos incríveis em “Namorados Para Sempre”, “Amor a Toda Prova” e “Tudo Pelo Poder”. Mas seu maior exemplo de brilhantismo artístico está nesse “Drive”, onde ele interpreta um personagem mais desafiador, por ser um lacônico tendo que mostrar a que veio. 

O sujeito que Gosling interpreta é um cara cujo nome nem chega a ser citado (ora é chamado de “driver”, ora de “kid”). Ele trabalha como dublê em produções cinematográficas, mecânico no estabelecimento do seu amigo Shannon (Bryan Cranston), e ainda faz bicos como piloto de fuga em grandes assaltos. Ou seja, trabalha em tudo o que envolve volante. Sendo um cara praticamente impenetrável, mora em um apartamento simples em Los Angeles, e logo inicia uma amizade com sua vizinha, Irene, uma jovem garçonete que tem um filho pequeno e o marido se encontra na cadeia. Apesar da imediata atração que surge entre os dois, o “driver” logo cria a tendência de proteger Irene e sua família, após o marido desta ser libertado, mas em dívida com mafiosos. O sujeito, que antes demonstrava ser tão calmo, resolve ajudar o vizinho, e com isso, envolve-se em uma série de reviravoltas que irão afetar violentamente a todos. 

A importância do filme está basicamente no próprio protagonista e na fórmula que encontraram para trabalhá-lo. O sujeito é construído de uma maneira até metodológica para faturar o nosso interesse. O filme chegou quase nos seus 20 minutos de duração até que o personagem solte uma palavra. E no decorrer da história, seu discurso parece ser economizado para restarem suas ações. E que ações. Até as suas vestes nos querem dizer algo. Sua jaqueta, que traz um escorpião estampado nas costas, nos remete diretamente à fábula do escorpião e do sapo (que até chega a ser citada no filme). Para quem não conhece, trata-se da estória de um escorpião que queria atravessar um rio, e para isso, pede ajuda para um sapo. Este, embora desconfiado, aceita ajudar. Até que no meio do caminho é picado pelo artrópode. Mesmo sabendo que aquilo representava a morte dos dois, o escorpião argumentou que o ato de ferroar é da sua natureza, e teria que ser feito mesmo que aquilo o mataria junto a sua vítima (nesse caso, o sapo). 

Pois bem, ilustradamente, o motorista do filme é o sapo atingido pelo veneno do crime, que o rebaixou à sua corrupção. 

Óbvio que “Drive” não se resume somente a isso. O filme, aliás, é profundo, principalmente no que diz respeito ao estilo. A história, baseada no livro de James Sallis não traz nada muito além da impecável alegoria que já falei, mas o grande barato de “Drive” está justamente na sua aura cool, pomposa nos seus detalhes artísticos. É raro ver perseguições automobilísticas com certo cuidado visual e até mesmo calma para a execução delas (!). A excelente trilha sonora fica a espreita em meio a tanta violência (existe até esfacelamento de crânio com pisadas, bem ao estilo de Gaspar Noé) e atuações magníficas. Além de Gosling, destaque para Albert Brooks, popular comediante norte americano, que quase foi indicado ao Oscar por este papel. Foi injustamente ignorado, assim como o próprio Ryan Gosling, a quem todos apostavam alto. 

“Drive” rendeu ao seu interessante diretor, Nicolas Winding Refn, a Palma de Ouro no último festival de Cannes. O diretor dinamarquês, que está sendo visado graças ao seu agora importado talento, vai repetir sua parceria com Ryan Gosling no seu próximo filme intitulado "Only God Forgives", com previsão original de estréia ainda em 2012.

domingo, 15 de abril de 2012

In Memorian



Conheci a Cinthia quando estava na segunda série do ensino infantil. Logo nos primeiros dias de aula, a nossa afinidade aflorou de uma maneira quase inexplicável. É difícil acreditar, mas eu, aos oito anos (ela com dez), acabei conhecendo o valor da amizade, algo até então difícil de entender o conceito. 

Durante anos e anos, sempre estudamos na mesma sala de aula. Professores até tentaram – em vão - nos manter afastados, fazendo a gente sentar em lados opostos da sala de aula, tudo para que tanta conversa cessasse. E, de fato, era MUITO papo. Quando não tinha aula, o programa era passar na locadora, alugar VHS e descambar pra minha casa assistir filmes. “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, “Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado” e “Titanic” foram filmes que marcaram muito essa época.


Mais alguns anos se passaram, a adolescência chegou, e a dupla Junior e Cinthia se matinha cada vez mais unida. No colegial, mudamos para outra escola juntos, e a companhia se manteve. Não havia um lugar em que eu estivesse, e Cinthia não estava junto, e vice-versa. Nossas famílias se tornaram vizinhas. E se tratando de família, a minha se tornou a dela, e a dela se tornou a minha.

Tinha gente que apostava em um casamento. Tolos. Mal compreendiam o valor de uma amizade entre pessoas de sexo oposto. Descobrimos o seriado “Will & Grace” (quem não conhece, vale a indicação) e acompanhamos todas as temporadas com uma identificação de causar espanto. Aliás, se querem entender o nível do nosso companheirismo, Will e Grace são os exemplos mais próximos que posso dar.

Cinthia tinha duas paixões: psicologia e teatro. E seguiu com esse sonho, foi cursar Psicologia e se dedicar, como pôde, ao teatro amador. E não é porque é minha amiga não, mas eu sempre acreditei que, com o talento nato que ela representava, ela ia muito longe. Eu fiquei vagando entre projetos e desejos pessoais, até cair na Filosofia. Mesmo estudando em faculdades diferentes e trabalhando em áreas distintas,  estávamos sempre indo ao cinema em cada brecha de tempo que encontrávamos. Enquanto um comprava a pipoca, o outro ia guardando os lugares na sala do cinema


Os amigos que fazíamos acabavam se tornando amigos em comum. Um sempre falava do outro. As amigas dela me conheciam antes mesmo de serem apresentadas a mim. Comigo era a mesma coisa. Os rapazes que ela conhecia, tinham que passar pelo meu ciúme crivo. Comigo era a mesma coisa. Cada projeto, a primeira pessoa a ser perguntada, tinha que ser, é claro, o melhor amigo. E repito: Comigo era mesma coisa. 

Apesar de esses mesmos projetos terem nos afastados o mínimo que fosse (fazendo com que nos víssemos somente uma vez por semana, um disparate!), nada poderia diminuir nossas piadas internas, aquela feição que fazíamos um pro outro que já servia como um diálogo inteiro. Isso, pra ser sincero, é de um sincronismo que somente uma amizade de tantos anos poderia resultar. 

Na última semana, infelizmente, a dupla se desfalcou. Obviamente, não vou entrar em detalhes no processo doloroso que foi, porque isso desvirtuaria a idéia desse post. Qualquer homenagem que eu pudesse fazer, por mais simplória que fosse, eu produzo porque isso foi um dia conversado. 


Com 24 anos, não me sinto preparado para despedidas. Nunca gostei, e presumo que nunca estarei preparado para tal. Foi a primeira vez que passei pela dolorosa sensação de, justamente, ter que dizer adeus sem ouvir uma resposta verbal. Pela primeira vez, Cinthia me retribuiu um silêncio. 

Uma das coisas que eu aprendi com tantos filmes e séries que assistimos juntos, foi o real valor da morte. Foi em “Six Feet Under”, em sei lá qual temporada, que algum personagem, intrigado pela questão “Pra quê existe a morte?”, ele conclui respondendo algo como: “A morte existe para a vida ser valorizada. Se a morte não existisse, a vida seria um nada”. 

Então, se é pra vida ser aproveitada com o máximo de realizações, eu posso dizer que a Cinthia cumpriu a sua tarefa como sempre fez questão de ser: exemplar.

Dito tudo isso, Cinthia, espero que esteja guardando o meu lugar, como tantas vezes teve que fazer na sala do cinema. Um dia, quem sabe, voltaremos a ter a boa e velha sessão juntos.


Antes de tudo, é preciso dizer que esse post não tem nada de oportunista, até porque não estou falando de qualquer pessoa, e sim, de uma grande amiga, a quem foi minha companhia honorária em ver filmes. Muito do cinéfilo que sou hoje, e desse blog, se deve a ela. E poucos sabiam o porquê... até agora.

terça-feira, 10 de abril de 2012

O Turista Acidental [1988]


(de Lawrence Kasdan. The Accidental Tourist, EUA, 1988) Com William Hurt, Kathleen Turner, Geena Davis, Amy Wright, Ed Begley Jr., Bill Pullman. Cotação: **** 

Este é um filme bem típico dos dramas de finais dos anos 80, que hoje, possui uma aura nostálgica e triste. Sim, o filme, apesar de muitos o considerarem uma “dramédia”, eu o vejo como um drama genuíno, e dos pesados. Ora, o filme já retrata, de imediato o drama de um casal que perdeu o único filho em um trágico episódio envolvendo um assalto. Depois disso, há um divórcio disfarçado em mútuo abandono e a tentativa de se reencontrar num mundo que pouco faz sentido. De maneira mais reducionista possível, é isso o que ocorre com o nosso protagonista, interpretado de maneira simples e humana por William Hurt. 

Após a perda do filho, Macon Leary (William Hurt) não poderia esperar o pedido de divórcio feito pela esposa, Sarah (Kathleen Turner). Ele é um homem de poucas palavras e ausente por conta de seu trabalho, que consiste em viajar mundo afora para escrever resenhas. É autor de “O Turista Acidental”, um guia de grande sucesso entre os executivos, que os ensina a organizar detalhadamente uma viagem sem ter que abrir mão da sensação de estar em casa (o logo da capa é uma poltrona alada), com dicas de como arrumar a mala e o que comer durante os vôos. Após a separação, ele vai morar na casa de seus irmãos metódicos, e sem ter onde deixar o seu cachorro de estimação (um lindo cão da raça Cardigan Welsh Corgi) para conseguir viajar, recorre a um hotel de animais, cuja dona é a excêntrica Muriel Pritchett (Geena Davis), moradora do subúrbio e mãe solteira. Logo, Macon acaba mantendo uma relação cada vez mais próxima com Muriel. 

É interessante notar a construção de personagem em cima de Macon. Ele é um intelectual de poucas palavras, quase incapaz de demonstrar algum tipo de reação. Logo no primeiro ato de “O Turista Acidental” já o conhecemos dessa maneira, mas ao longo da história, pudemos ver que ele pode não ter sido sempre assim. A morte prematura do filho pode ter sido determinante, ou pelo menos, ter acentuado sua insatisfação constante com a vida. E não é a toa que sua esposa resolve seguir uma vida longe dele, justificando que, no momento em que ela mais precisou, foi obrigada a se deparar com um homem frio e distante. E essa personalidade chocou-se de frente com Muriel, exatamente o avesso do casal. Mesmo estando com grandes infortúnios (é mãe solteira de um menino cheio de problemas de saúde), ela não se redime a uma vida de “oh, céus, oh vida, oh azar”. Ou seja, os paralelos de personalidades é que dão rumo à história. 

“O Turista Acidental”, baseado no livro homônimo de Anne Tyler, é dirigido Lawrence Kasdan, mais conhecido por escrever roteiros de filmes como "Grand Canyon - Ansiedade de uma Geração" (1991) e o – vejam só - "O Guarda-Costas" (1992). O longa também é conhecido por ter dado o primeiro e único Oscar de Geena Davis como atriz coadjuvante. Esta, aliás, conseguiu a proeza de ter um período de bons trabalhos (voltou a ser indicada como melhor atriz por “Thelma & Louise” três anos mais tarde), para depois ser rebaixada numa série de trabalhos ruins e vexatórios pra sua carreira. O que é uma pena, pois a moça tinha um perfil interessante pra indústria, com sua estatura alta, rosto marcante e um talento peculiar. Por isso, “O Turista Acidental” acaba sendo a apresentação de um trabalho notável de Geena, que como puderam perceber, acabou sendo pontual. 

Por ser equilibrado demais, “O Turista Acidental” não tem grandes admiradores. O que posso dizer é que o filme é bem intencionado, e vai agradar, principalmente, aos fãs de bons dramas conflitantes.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fale com Ela [2002]


(de Pedro Almodóvar. Hable con Ella, Espanha, 2002) Com Javier Cámara, Darío Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Geraldine Chaplin. Cotação: *****

Pode parecer surpreendente, mas Pedro Almodóvar só foi indicado apenas uma vez para o Oscar, tanto como roteirista como diretor (é por estas e outras que a premiação, muitas vezes, não é levada muito a sério). E o filme que deu a chance de Almodóvar de ganhar a estatueta dourada foi justamente este “Fale Com Ela”. Curiosamente, é um dos meus preferidos do diretor espanhol (se não for o mais). Não que eu me influencie desta maneira com Oscar, mas acredito que ele é um dos mestres mais injustiçados da Academia, que está demorando a reconhecer o talento do cara e, enfim, condecorá-lo como diretor (ele ganhou apenas na categoria de roteiro), mesmo que ele sempre esteja lançando filmes excelentes. Mas parece que ele não está nem aí, e faz questão de provar que Oscar não faz falta pra ele.

“Fale Com Ela” tem uma trama tortuosa, e uma das mais belas que Almodóvar já contou. Trata-se de duas histórias que – como sempre – vão acabar se relacionando. De um lado, o enfermeiro Benigno (Javier Cámara) cuida de Alicia (Leonor Watling), uma paciente em coma há quatro anos, a quem ele parece manter uma paixão platônica desde o acidente de carro que a deixou em estado vegetativo. De outro lado, o jornalista argentino Marco (Darío Grandinetti), que escreve para o “El País”, se envolve com Lydia (Rosario Flores), uma toureira de sucesso que acaba se ferindo gravemente na arena e entra em coma profundo. No hospital, Benigno e Marco vão iniciar uma amizade repleta de confissões, cumplicidade e ligada pelo amor que sentem pelas mulheres que se encontram internadas.

É interessante notar, de imediato, a diferença primordial entre Benigno e Marco. Apesar de ambos estarem em uma situação parecida, os dois lidam com as trágicas conseqüências de maneiras diferentes. Benigno acredita que tudo pode ser revertido, e que o amor pode vencer qualquer barreira. Sua ingenuidade pode acabar custando caro. Marco, por sua vez, já é cético em relação a muitas coisas, inclusive na possibilidade de sua companheira acordar, ou até mesmo, na chance dela escutar no coma (o título da obra vem daí). Nessas diferenças, o resultado pode ser fatal: enquanto um está sempre ganhando, o outro está sempre perdendo. Mas o que determina quem ganha ou quem perde nessas ocasiões são as artimanhas do destino. E com destino Almodóvar sabe brincar e fazer bonito.

As viradas que a história dá e a amostra do que é se alimentar das paixões são características tão presentes no universo de Almodóvar, que tudo ali parece acontecer de forma natural. E sabemos que, no final da história, um auge inesperado e surpreendente poderá acontecer. Em “Fale Com Ela”, Almodóvar, que sempre se mostrou bom entendedor da mente das mulheres, trata do homem como vítimas de um amor vitimado pelo acaso. E as mulheres se mantêm fora do contexto principal na maior parte do tempo. Ou seja, o diretor e roteirista deixou calar (mas não completamente) as mulheres para dar chance de provar que a delicadeza masculina não só existe, como também se faz presente de uma maneira única. 

Almodóvar também insere dentro de seu filme um curta-metragem inesquecível sobre um homem que vai encolhendo, e acaba sendo acolhido por sua mulher, mas de uma forma bem curiosa (vale a pena conferir). Ainda tem a presença marcante de Geraldine Chaplin, filha de Charles Chaplin (1889–1977), interpretando a professora de balé de Alicia. “Fale Com Ela” também é um dos filmes mais “abrasileirados” de Almodóvar, que colocou Elis Regina na trilha sonora, e uma ponta de Caetano Veloso (a quem é amigo e admirador) cantando em uma cena que reúne grandes atrizes que são conhecidas pelos filmes com Almodóvar, como Cecilia Roth e Marisa Paredes.

Não tem como não gostar.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão [1982]


(de Woody Allen. A Midsummer Night's Sex Comedy, EUA, 1982) Com Woody Allen, Mia Farrow, José Ferrer, Julie Hagerty, Tony Roberts, Mary Steenburgen. Cotação: ***

Presente nas grandes coleções à venda de Woody Allen, na verdade é um dos mais esquecíveis do diretor, e me arrisco a dizer que seja um dos títulos mais fracos dele nos idos dos anos 80. Não chegou a ser levado a sério, tendo conseguido uma indicação ao Framboesa de Ouro (o Oscar dos medíocres) de pior atriz para Mia Farrow. Ela, por sinal, marca aqui o início de uma duradoura parceria com Allen, que viria a ser seu esposo, que por sua vez e planejava este papel para Diane Keaton, atriz que recusou o projeto por estar envolvida na campanha de divulgação do filme “Reds”, estrelado ao lado de Warren Beatty e quase lhe rendeu um Oscar de melhor atriz. Mas voltando a Mia Farrow, a atriz de voz enjoada e semblante puritano está arrasando corações na história, o que fica difícil de ser levado a sério.

Não sabemos bem quando se passa a história (a sinopse dá conta do inicio de 1900), quando o “inventor excêntrico” Andrew (Woody Allen) e sua esposa Adrian (Mary Steenburgen) estão passando por uma delicada crise sexual, mas estão pra receber visitas em sua casa de  campo. São eles, um primo de Adrian, o professor universitário, filósofo e erudito Leopold (José Ferrer) e sua noiva bem mais jovem, Ariel (Mia Farrow), e ainda o amigo de Andrew, o médico mulherengo Maxwell (Tony Roberts) e a enfermeira Dulcy (Julie Hagerty). O que os três casais não poderiam esperar é que o passado de um está ligado ao outro, ou surgem atrações momentâneas, que resultam em uma verdadeira ciranda amorosa.

Sim, o nome tem algo a ver com “Sonhos de Uma Noite de Verão”, umas das principais peças de Shakespeare, que data no final do século XVI, mas tem ainda uma maior relação com “Sorrisos de Uma Noite de Verão”, filme de 1955 do diretor Ingmar Bergman. Woody Allen, sempre ligado nos mais variados temas e movimentos culturais de épocas distintas, quis brincar com as situações correspondentes entre a peça e o filme que ele adaptou da forma mais liberal possível. Existem as suas características visíveis, como a descarada crítica que ele faz à figura do esteta/acadêmico, aqui interpretado pelo ator José Ferrer (1912–1992), e algumas das mais notórias frases de efeitos que ele cria, como "o casamento é a morte da esperança" ou "o sexo alivia a tensão, o amor a causa". Exemplos soltos de afirmações que o tornam um verdadeiro cineasta-filósofo.

“Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão”, no final das contas, não chega a ser um filme que faz jus a extensa lista de roteiros brilhantes de Allen. Aqui ele está mais modesto, deixando de ser um protagonista para dividir atenção com um elenco até grande para os moldes de seus filmes. Também não criou uma história inteiramente imaginativa (como disse, as referências são óbvias), e precisa de uma maior liberdade poética para aceitar algumas situações forçadas, principalmente quando existem bolas de cristal, objetos voadores e ectoplasmas na floresta. Porém, isso acaba proporcionando ótimas discussões entre os personagens mais “místicos” e o cético professor universitário que ficou famoso por escrever um livro criticando ferozmente a metafísica. E apesar do potencial dessa ideia, não tem como escapar de uma alusão que o filme faz e que demonstra certo desleixo criativo de Allen no indecoroso desfecho. 

Afinal, seriam os vagalumes a essência de alguém que morreu no auge da paixão?

Uma pergunta profunda, se não fosse risível.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Amores Brutos [2000]


(de Alejandro González Iñárritu. Amores Perros, México, 2000) Com Gael García Bernal, Goya Toledo, Vanessa Bauche, Jorge Salinas, Adriana Barraza. Cotação: *****

Eu me recordo muito bem o quanto eu resisti a esse filme por anos. Após assistí-lo há muito tempo, ainda meio inexperiente, eu fiquei horrorizado com tamanha violência, principalmente nas cenas envolvendo cachorros. Larguei o filme antes da metade, pois se não bastasse a carnificina canina, o filme tinha uma aura de causar náuseas, estética suja, e causava um incômodo indescritível. Passaram-se anos, e lembro que simplesmente adorei os filmes seguintes de Iñárritu que fecharam a trilogia iniciada justamente com “Amores Brutos”. Foram eles, “21 Gramas” e “Babel”, de 2003 e 2006, respectivamente. Toda a trilogia foi resultado de uma memorável parceria entre Iñárritu e o roteirista Guillermo Arriaga. Como um bom aluno, fui rever “Amores Brutos”, desta vez bem mais preparado. O resultado foi uma grata surpresa.

O trato com os cachorros ainda me incomoda, isso eu não nego. Mesmo que sejamos alertados, logo no início da película, que nenhum cachorro sofrera maus tratos. Não tinha como excluir a participação dos cães, porque eles são justamente o grande elo das histórias apresentadas aqui (vem daí o título “amores perros”). Octavio (Gael García Bernal) fica perdidamente apaixonado por Susana (Vanessa Bauche). Não seria grande problema, caso ela não fosse esposa do seu violento irmão. Para arquitetar uma fuga com ela, Octavio coloca o seu rotweiller em rinhas clandestinas de cães, o que lhe garante alguns trocados. Valeria (Goya Toledo) é uma top model de sucesso e referência de beleza. Seu amante acaba de largar esposa e filhas pra viver com ela. Mas um terrível acidente a faz ficar debilitada, com uma de suas famosas pernas repleta de pinos. E o catador El Chivo (Emilio Echevarría) tenta se reaproximar de sua filha, hoje uma mulher, que ele abandonou quando era ainda uma criança para servir numa guerrilha.

Como se vê,  são histórias que aparentemente não tem nada a ver umas com as outras. A não ser o amor pelos cães que cada um sentem. Susana fica desesperada ao ver seu seu pequeno cachorro entrar no asoalho do apartamento e não poder fazer nada por conta de sua dolorosa recuperação, e El Chivo, como todos os catadores de papelão e quaisquer outros materias recicláveis, vive repleto de cachorros ao seu redor.  Claro que os animais não são o suficiente para se imporem no filme, afinal, é preciso um elo maior de ligação. Isso fica a cargo de um acidente entre carros, que irá afetar a vida dos personagens definitivamente. 

Em qualquer aula básica de teoria cinematográfica, uma das coisas que nos é ensinada é a atenção que devemos ter nas peculiaridades do roteiro. E isso pode ser interpretado na forma como o roterista (nesse caso, Arriaga) desenvolve a sua narrativa. Cada cena e cada diálogo devem ACRESCENTAR algo na história. “Amores Brutos” é um exemplo a ser seguido, pois suas cenas sempre tinham algo a trazer tanto para as histórias, quanto para acrescer os próprios personagens, os tornando cada vez mais intrigantes. Se isso já não é elogio suficiente, o que dizer então do belíssimo trabalho de  Iñárritu, antes um publicitário que se encantou com o ofício, e demonstrou o início de sua fase mais promissora. Amo toda a trilogia, mas não sou fã de “Biutiful”, por exemplo. O que pode acusar uma certa limitação no próprio diretor, que ainda merece melhores oportunidades e fugir de uma acusação de cineasta de um truque só (nesse caso, de três).

“Amores Brutos” chegou a ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro, mas acabou perdendo para o belíssimo “O Tigre e o Dragão”. O filme também é válido para você conhecer um lado do México que você certamente não gostaria de viver.